Deus na humanidade e a humanidade em Deus

A peça Meu Deus! propõe uma profunda reflexão sobre a bondade (e a maldade) de Deus e o papel “sagrado” do ser humano.
Foto: Caio Oviedo

A peça, escrita pela israelense Anat Gov e já em sua segunda montagem no Brasil, ambas de Elias Andreato, propõe uma interessante reflexão sobre a bondade e a maldade de “Deus” e o papel profano e sagrado do ser humano aos olhos do “Criador”.

 

“Meu Deus!” é uma peça, em cartaz no Teatro das Artes, em São Paulo, que propõe uma reflexão sobre fé, amor, bondade e crueldade. Trata, ao colocar Deus no divã, da natureza humana numa dimensão profunda.

Ana é uma psicoterapeuta, mãe de uma criança autista e que se esforça, com todas as forças da negação, para acreditar-se ateia. Já Deus, o patriarcal Javé do Velho Testamento, está desanimado e seu desânimo o prejudica no uso de seus poderes, o que, segundo Ele, não é de hoje, já teria mais de dois mil anos.

Deus sabe tudo sobre o asco que Ana nutre por Ele, sobre como suas “orações” são insultos e expressão de revolta contra o Criador, em razão de todas as dores que a vida (ou Deus) lhe trouxe, tais como o abandono do marido e o ônus de ter de criar sozinha um filho com autismo nível 3, o menino Paulo, interpretado por Enzo Morente.

Sobrou, para Ana, a solidão e os sentimentos ambíguos de uma maternidade nada idealizada e uma vida que sempre pede mais.

Contudo, Ana surpreende Deus ao mostrar que também sabe onde pode estar a dor d’Ele, afinal, ela é feita à Sua imagem e semelhança e sabe como é nutrir sentimentos ambíguos em relação às próprias criações. O que pensaria Javé, hoje, depois de mais de dois mil anos, sobre o que fez ou deixou suceder a seu mais fiel devoto entre os homens, Jó? Aqui, o processo terapêutico se expressa, porque faz da ferida, de analista e analisando, o ponto de mutação e de autoencontro de ambos.

Antes mesmo de as cortinas se fecharem, a peça me remeteu a um dos livros de Carl Gustav Jung mais polêmicos: “Resposta a Jó”, obra em que questiona a bondade suprema de Deus e, assim, faz uma releitura sobre o valor filosófico-religioso da humanidade, com toda a sua imperfeição, para Deus.

Como um drama-cômico, escrito pela dramaturga israelense, Anat Gov, e que já teve uma montagem anterior no Brasil, de 2014 a 2016, a peça caminha com mais fluidez pela comédia, lugar onde Sérgio Guizé, que interpreta Deus, parece se sentir mais à vontade. Ana, interpretada por Bianca Bin, transita mais fluidamente entre os dois gêneros e sustenta a tensão dramática, o que é fundamental para que o desfecho da peça seja lindo e emocionante.

O tom predominantemente cômico da peça dirigida por Elias Andreato confere uma leveza indispensável à história, considerando o peso natural que carrega. Em alguns momentos, mais para o começo e o meio da peça, senti falta de maior carga dramática no personagem divino.

De toda a forma, a peça vale o ingresso e entrega — ao menos para mim entregou — uma boa dose de fé em Deus e, por que não, na humanidade.

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