
Foto: Gemini-IA
A cultura do cancelamento e da espiral do silêncio parece ignorar a dúvida e, ao ignorá-la, ignoramos também a saudável sensatez.
A cultura do cancelamento é antes de tudo fruto de uma sociedade de ouvidos moucos. Mouco é o que não ouve ou ouve muito pouco. No nosso caso, ouvimos pouco e mais errado do que seria desejável. Nesse contexto, o que, por que e pra que dizer algo?
A cultura do cancelamento produz a cultura do cansaço e como resultado temos o silenciamento da inteligência. Isso porque, quando se trata de ouvidos moucos, os pontos de interrogação são confundidos com exclamações ou pontos finais. A cultura do cancelamento parece ignorar a dúvida e, sem dúvida, ignora-se também a sensatez.
A cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann postulou o termo “espiral do silêncio”, segundo o qual uma ideia pode ser tão dominante em determinados ambientes que toda e qualquer contraposição será ferozmente atacada. Assim, as pessoas atravessadas por qualquer questionamento ou contrariedade, para não serem malvistas, se calam.
Na Algoritmolândia, a espiral do silêncio é turbinada e o vozerio digital que se ouve é, quase sempre, bem pouco autêntico. Não direi que não é corajoso, porque se meter a dizer e questionar nesse contexto pode ultrapassar os limites da coragem e nos colocar num terreno minado, onde heroísmo vira estupidez. Assim, cada qual fala única e exclusivamente para a sua tribo e as tribos não trocam.
Estou escrevendo isso porque sinto cada vez mais que, à esquerda e à direita, o que impera é a espiral do silêncio. Essa atitude se revela mais claramente na polarização política que compromete o diálogo entre familiares nas festas de fim de ano, mas vai além (e para dentro de cada um de nós)…
Assisti aos comentários feitos pelo jornalista Arthur Dapieve sobre Brigitte Bardot, por ocasião de seu falecimento no dia 28 de dezembro de 2025. Ele falou sobre as três “diferentes” “Brigittes” que se revelaram ao longo da vida da musa do cinema:
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- A primeira Brigitte é a atriz símbolo sexual que não se limitou a ser objeto de desejo, mas se tornou sujeita do desejo ao se permitir desejar os que a desejavam e, assim, perturbar os homens e inspirar as mulheres a também serem donas dos próprios desejos. Não sem motivo, Simone de Beauvoir, segundo Dapieve, chegou a escrever que, se Bardot não rompeu com o patriarcado em seu exemplo, aproximou-se disso.
- A segunda Brigitte é a que deixou o cinema para se dedicar à defesa dos animais. Ela dizia que havia doado a sua beleza e juventude aos homens como atriz e, ao se aposentar, doaria a sua experiência de vida e sabedoria aos animais. Uma atitude que, na década de 1970, também foi prova de um tremendo pioneirismo. Afinal, pouco se falava a respeito desse tema na ocasião.
- A terceira, segundo Dapieve, seria a mais polêmica das Brigittes, aquela que chegou a ser condenada pela justiça francesa a pagar multas por tecer comentários islamofóbicos. A mesma que expôs publicamente ser contra o direito de casais homossexuais adotarem crianças. A que fez críticas ao movimento #Metoo, que visava combater o assédio e a agressão sexual sobretudo contra as mulheres. Diante da participação de várias atrizes no movimento, Brigitte declarou que, muitas vezes, eram as atrizes que davam em cima dos diretores para conseguir papéis melhores nos filmes.
Depois de fazer essa interessante e nada superficial análise de Bardot, Dapieve comenta que, ao cancelar Brigitte por uma de suas facetas, estaremos cancelando também as outras duas. Ou seja, ao aniquilar o que julgamos sombrio, aniquilamos também o que é luminoso.
O fato é que somos naturalmente incoerentes e contraditórios. A tarefa mais difícil nas relações é amar de verdade e amar de verdade não é aceitar apenas aquilo que gostamos no outro e em nós mesmos, amar de verdade é aceitar também aquilo que não gostamos no outro e em nós mesmos.
Isso não significa concordar, mas suportar a divergência, compreender o outro e a si mesmo para estabelecer pontos de conexão, o que só é possível quando somos capazes de cultivar uma boa dose de dúvida sempre. Afinal, o amor não se prova na certeza, se prova na incerteza. Não se prova na coerência, mas na contrariedade.
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