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“O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas, sim, ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento”, Carl Gustav Jung.
A vida é um exercício de autoaceitação. A frase é concisa, mas se analisada atentamente revela uma tarefa nada trivial e talvez infinita. Isso porque somos muitos e, ao mesmo tempo, únicos. Nossa multiplicidade genuína nos torna indecifráveis e indefiníveis, o que faz do exercício de autoaceitação uma empreitada que se renova sempre e de novo.
Sendo assim, é possível dizer que a análise visa nos ajudar a aceitar a nossa múltipla e, ao mesmo tempo, antinômica unicidade. Não sem motivo, Jung escreve:
“O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas, sim, ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento”.
Quando se diz que a psique é antinômica, refere-se a seu caráter opositivo. Autoaceitar-se, então, e em linhas gerais, é encontrar maneiras de conciliar, comungar, ao longo da vida, as antinomias que nos constituem: inconsciente e consciente, luz e sombra, masculino e feminino, bem e mal, Deus e Diabo.
Mas não se faz isso sem sofrer. Tais casamentos íntimos demandam de nós a capacidade de lançar, à vida, um olhar simbólico, metafórico, mitopoético. É o símbolo e seu poder unificador que nos permite consumar o matrimônio das antinomias e conferir sentido às nossas experiências psíquicas. Para ter significado, a vida precisa ser vista com lentes literárias, não literais.
Por isso, os sonhos, a arte e os sintomas físicos são tão importantes: funcionam como expressões simbólicas que revelam os significados inconscientes das histórias que estamos vivendo, às vezes, sem saber.
A terapia visa, então, contribuir para tornar o indivíduo mais íntimo do desconhecido que o habita e direciona seus passos sem que saiba, dotando-o de atitude filosófica que lhe inspire um olhar simbólico para si mesmo e lhe possibilite transcender a ideia de uma vida atomizada e massificada, encontrando, em sua jornada, o mito do próprio significado, sem o qual é impossível ter firmeza e paciência diante do sofrimento da vida.
