Metanoia: mudar para preservar a própria essência

Mudar, então, nessa perspectiva, não é se trair, mas se aceitar. Mudamos para preservar a própria essência anímica, cujo caráter é mercurial. Ser quem se é não é se tornar refém de quem se foi. Ser quem se é, é aceitar as mudanças que a vida nos demanda para que sigamos nos desenvolvendo. Foto: Natalie Sierra

Mudamos para preservar a própria essência. Ser quem se é não é se tornar refém de quem se foi, é aceitar as mudanças que a vida nos demanda para que sigamos nos desenvolvendo. Isso é metanoia.

 

Metanoia é uma palavra do grego que une meta (mudança) e noia (mente). Significa, assim, uma mudança de mentalidade profunda, uma nova maneira de pensar e ver o mundo. É interessante considerar que a palavra meta pode ser também “além”, enquanto noia pode ser “razão”. Dessa forma, passar por uma metanoia é transcender a própria razão.

Ao longo da vida passamos por diversas metanoias e cada uma dessas passagens é uma morte e um renascimento. Vamos da infância para a juventude, da juventude para a maturidade, da maturidade para a velhice. Ao nos tornarmos jovens, não somos mais a criança que fomos e dói deixar para trás o futebol com os colegas na rua de paralelepípedo, a pipa nas férias e a sensação de que nada pode ser maior do que nosso bairro. De forma parecida, ao nos tornarmos maduros, não somos mais como éramos na juventude. E assim também é quando se chega à velhice.

Sim, algumas vezes não nos encorajamos a fazer tais passagens e vivemos a juventude de forma infantil e a maturidade como se fôssemos jovens. Todo mundo nota essa incoerência, enquanto a gente finge não notar. Negamos aquilo que precisamos nos tornar com medo de deixar de ser aquele ao qual nos acostumamos a ser e que nos acomoda num lugar da alma onde nos sentimos, mesmo que ilusoriamente, seguros.

Mas o fato é que a alma quer de nós desenvolvimento. Desenvolver é sair do envolvimento. Na infância, estamos, de alguma maneira, envolvidos no útero imaginal da infância, da família. Na juventude, depois de se conquistar com muito esforço um lugar ao sol da sociedade, temos de nos desenvolver das próprias conquistas e encontrar o sentido da vida na própria interioridade. A viagem, agora, é para dentro, não mais para fora.

Nalguns casos, temos de lidar com um sentimento de fracasso por não termos conquistado nosso lugar ao sol da sociedade durante a juventude. Temos de seguir para a próxima etapa mesmo assim, dando um jeito de ver sentido na vida que levamos e nos despimos daquela que sonhamos, mas que não fomos capazes de realizar. Deve haver um sentido para ter sido como foi. Cabe a cada um de nós encontrar.

A análise costuma ser demanda, sobretudo, nos períodos críticos de metanoia. Por isso, esse texto tem lugar de destaque neste site. Todas as metanoias são importantes, mas uma delas, em especial, é bem negligenciada: a da maturidade e da velhice.

Amadurecer e envelhecer, num mundo que supervaloriza a juventude e a produtividade, é um tabu. Por isso, a metanoia da meia-idade tem lugar de destaque na psicologia analítica. Nela, a ideia é que o sol de nossa existência recolha seus raios e ilumine a si mesmo.

É possível dizer que o próprio Jung deu à luz a psicologia analítica durante a sua crise da meia-idade. Ele escreveu que, em nosso mundo, há ritos de passagem para os indivíduos entrarem na juventude, basta pensar nos bailes de debutante, nas formaturas etc., mas a maturidade e a velhice são negligenciadas. É como se, depois que se ingressou na juventude, nada possa ser tão relevante que mereça um rito simbólico de transformação. Para Jung, não é assim.

A tarde da vida é o momento apoteótico, afinal, nos prepara para o instante em que nosso sol mergulhará na noite e encherá o céu de um arrebol hipnotizante. No meio da vida, não estamos literalmente no fim, mas temos, pela frente, muito mais tempo maduros do que tivemos em qualquer outro momento da nossa existência. De agora em diante, o que faz sentido é o que serve para que possamos nos reconhecer.

O fato é que, a cada metanoia, somos convidados a conhecer um aspecto fundamental de nós mesmos. A transmutação — que se dá não apenas na psique, mas também no corpo — quer de nós que sejamos capazes de aceitar a própria essência com a expressão que melhor lhe cabe agora. Mudar, então, nessa perspectiva, não é se trair, mas se aceitar. Mudamos para preservar a própria essência anímica, cujo caráter é mercurial. Ser quem se é não é se tornar refém de quem se foi. Ser quem se é, é aceitar as mudanças que a vida nos demanda para que sigamos nos desenvolvendo.

Para que fazer análise?

“O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas, sim, ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento”,

Carl Gustav Jung

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