Os sonhos como bússola de si mesmo

É preciso olhar o sonho como um prisma que apresenta diferentes perspectivas, sendo aquela que mais reverbera na alma do analisado a mais eficaz para o momento de vida dele.
Foto: Behnam Mohsenzadeh

Os sonhos se fazem de imagens simbólicas que costumam virar narrativas. É preciso olhá-los como prismas, com diferentes perspectivas.

 

Carl Gustav Jung mostra que a maior parte do que fazemos ao longo da vida não é consciente. As dimensões do inconsciente são infinitas e não são só fruto do acúmulo de experiências recalcadas ao longo da vida. O inconsciente pode ser comparado ao caos primordial, é o material anímico acumulado a partir de diversas formas de existência pregressas. Mais: é atemporal e, assim, também abarca o presente e o futuro.

Ao trazer o conhecimento do passado e a prospecção do futuro, independentemente de qualquer juízo de valor, a natureza do inconsciente não é nem boa nem má; é um fluxo infinito, do qual somos extensão, que traz nossas inspirações e perdições. É daí que vêm os sonhos também e eis por que são tão importantes para a análise junguiana: funcionam como mapas narrativos para navegarmos as próprias vidas.

Vale registrar que essa tentativa de descrever o inconsciente pressupõe que ele não seja apenas individual, mas também coletivo e universal, o que ajuda a explicar porque, desde tempos imemoriais, a humanidade acredita que, num indivíduo, há mais do que ele próprio. Só a partir da superestimação da razão, o que remonta a alguns séculos, se passou a acreditar que tudo é da minha deliberação consciente e, dessa forma, “meu”.

Não sem motivo, em nossos tempos, os sonhos perderam valor como fonte de conhecimento. Afinal, os sonhos não são fruto de deliberação conscientes e lógicas, florescem de maneira espontânea e à revelia da nossa vontade egóica. Vêm do inconsciente em todas as suas dimensões, individual e coletiva. Os sonhos cumprem alguns papéis, dos quais, é possível destacar, segundo Jung:

  • compensar um contexto de vida que não consegue mudar, como no caso do sujeito que não tem voz na sociedade, mas no sonho é um orador público super-respeitado;
  • prospectar ou predizer um fato, adiantando um acontecimento importante na vida do sonhador e o tornando mais capaz de lidar com o que há de vir;
  • ensinar algo ao sonhador, trazendo-lhe a compreensão e ciência de algo que, por outras vias, sua consciência, por algum motivo, não conseguia acessar;
  • reduzir a inflação de ego num indivíduo cuja atitude consciente seja assoberbada, mostrando-o menor — enfim, uma compensação também;
  • reagir a uma experiência traumática que o ego e a consciência tentam negar, mas que precisa ser aceita e revivida para que perca a força afetiva bloqueadora.

Os sonhos costumam trazer à tona questões sensíveis que, muitas vezes, impedem o analisando de se sentir mais realizado na vida. Analisar sonhos em série é uma forma de identificar padrões comportamentais que se mostram inapropriados para as realizações necessárias ao indivíduo e, ao mesmo tempo, apontar direções para desenvolver novas atitudes diante de novas demandas existenciais.

É importante ter em conta que o inconsciente, para Jung, se comunica por símbolos. Os sonhos se constituem de imagens simbólicas que costumam se apresentar como narrativas. Dessa forma, não são “verdades absolutas”, trazem, em si, inúmeros significados antinômicos, mas que encontram conexão na expressão mitopoética que constituem. Até por isso, é preciso olhar o sonho como um prisma que apresenta diferentes perspectivas, sendo aquela que mais reverbera na alma do analisado a mais eficaz para o momento de vida dele.

Para que fazer análise?

“O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas, sim, ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento”,

Carl Gustav Jung

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