A essência mitopoética do olhar e do processo analítico

Reconhecer a essência mitopoética de nossa alma é fundamental no processo analítico. Sem poesia e sem histórias, é impossível, para o ser humano, encontrar propósito no sofrimento, impossível suportá-lo e superá-lo.
Foto: Pawel Czerwinski

Reconhecer a essência mitopoética de nossa alma é fundamental no processo analítico. Sem poesia e sem histórias, é impossível encontrar propósito no sofrimento.

 

A psique humana traz em si uma essência mitopoética. A palavra mito, no grego antigo, significava narrativa, história, e poiesis, da qual vem “poética” e “poesia”, quer dizer fabricação ou criação. Ou seja, a psique humana busca, por meio da criação de histórias, encontrar sentido para a própria existência aparentemente aleatória.

É interessante observar que tal criação é espontânea, fruto de impulsos que ultrapassam o controle da razão. Conta-se história não porque se quer, mas porque é preciso para se conhecer, para se revelar. Mais do que tecer histórias, somos tecidos por elas. As histórias que contamos nos contam. Vêm do núcleo (inconsciente) coletivo do nosso ser, como um magma que irrompe das profundezas e, ao se misturar às experiências pessoais, às intempéries da vida, vira terra fértil para depois germinar flores e frutos na superfície da anima mundi.

Todo ser humano é um contador de história e, nalguma medida, um poeta, um criador, um jardineiro desse mundo animado. Não é apenas por mérito pessoal, mas por ser um herdeiro dessa alma coletiva que ele cria. Sua missão, a meu ver e a partir do meu entendimento da psicologia analítica, é conferir um toque singular à criação de sua própria história, de sua própria vida, de seu mito, que um dia será de todos.

Jung escreve em sua autobiografia:

“O que se é, mediante uma intuição interior, e o que o homem parece ser sub specie aeternitatis [sob a perspectiva da eternidade] só pode ser expresso através de um mito. Este último é mais individual e exprime a vida mais exatamente do que o faz a ciência, que trabalha noções médias, genéricas demais para poder dar uma ideia justa da riqueza múltipla e subjetiva de uma vida individual”.

Corrobora a citação acima a reflexão de James Hillman, segundo quem:

“Todas as pessoas em terapia ou afetadas pela reflexão terapêutica […] estão buscando uma biografia adequada: como juntar as peças de minha vida para formar uma imagem coerente? Como encontrar a trama básica de minha história?”.

Reconhecer a essência mitopoética de nossa alma é fundamental no processo analítico. Sem poesia e sem histórias, é impossível, para o ser humano, encontrar propósito no sofrimento, impossível suportá-lo e superá-lo.

Para que fazer análise?

“O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas, sim, ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento”,

Carl Gustav Jung

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