
Foto: Paulo Freitas
“A alma humana, você e o universo de Carl Gustav Jung” tem muito a nos dizer, inclusive que os sonhos realmente têm significado.
“Os sonhos realmente têm significado.” Foi o que minha filha de 12 anos escreveu numa cartolina no encerramento de uma dinâmica em grupo da qual participamos durante a programação paralela da exposição “A alma humana, você e o universo de Carl Gustav Jung”.
A frase é simples, como costumam ser as grandes descobertas íntimas, que também trazem uma magia singela, algo grandiosamente trivial, que pode ser expresso num: “Então, é isso!”.
Ela acompanhou a mim e a meu primo por quase duas horas na exposição que eu visitava pela quarta vez. O didatismo impressionante com que a mostra foi concebida por Luciana Branco, com a curadoria de Waldemar e Simone Magaldi, fundadores do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (IJEP), me ajudou na tentativa de traduzir Jung para uma pré-adolescente que ama o mundo das séries infatojuvenis.
Lemos juntos a frase da escada de acesso à exposição: “Do que tanto você tenta fugir quando se distrai?”. Falei a ela sobre angústia, ansiedade, sobre o que não nos agrada ver em nós mesmos. Escutou com o máximo de atenção, enquanto seus olhos, com vida própria, vagavam pelas figuras oníricas que nasciam do teto e das paredes do MIS.
Passamos pelas diversas formas de fuga, alegoricamente “dispostas” em frascos e comprimidos, e, depois de me ver rir pela quarta vez com a frase de Tom Zé, “Ao persistirem os médicos, os sintomas deverão ser consultados”, nos enveredamos, de vez, pelo universo do psiquiatra suíço.
Tentei explicar a ela o que eram os arquétipos e como os mitos nasciam a partir do mais profundo da alma humana. Ela fez “sim” com a cabeça e deu uma risadinha, entregando a confusão mental natural diante daquela inconsciência toda que já se anunciava. Recorri a um paralelo possível com “Percy Jackson e os Olimpianos”, mas não sei se com sucesso.
Passamos pelos psicopompos, deuses que unem os diversos mundos: o dos mortos, dos vivos e dos próprios deuses. Fomos de Exu a Ganesha. Pude dizer a ela, que é possível encontrar brilho mesmo nos lugares mais sombrios. Disse que, quando ela odeia alguém, pode ser que odeie uma parte dela própria que ainda não compreendeu como amar. Ela franziu a testa.
Fomos para os complexos, dos mais importantes conceitos junguianos, assim como a sombra. Aliás, às vezes, eles se unem numa constelação que guia, inconscientemente, nossas ações. Ela escreveu, animada, o que identificava em si mesma como um complexo e o pendurou na exposição.
Seguimos para as personas: as máscaras sociais que usamos para viver em sociedade. Falei a ela sobre como somos diferentes em cada ambiente em que convivemos:
— Você é a mesma na escola e em casa?
— Não.
Disse, então, que o importante é conseguir, ao interpretar esses papéis, trazer um bom bocado da própria essência, que é, sejamos francos, sempre um mistério. A persona não deve calar, mas fazer soar, da melhor maneira possível, quem somos nos diferentes ambientes. O perigo é nos confundirmos com ela: acharmos que temos de ser em casa como somos na escola.
Chegamos ao ego e não sei se ela entendeu que, para ser tantos assim e para encontrar amor no que odiamos, o eu, aquilo que apenas achamos que somos, tem de ser meio “biruta” mesmo, senão, não aguenta.
Passamos pelo teste de associação de palavras, que ela fez, curiosa; pelas mandalas e seu poder de cura. Vimos que, para o psiquiatra suíço, “Deus é bom mais mau o tempo todo” e é por isso que os opostos precisam ser integrados. Os alquimistas, de certo modo, tentavam realizar essa união. Por isso, Jung enxergava uma clara relação entre o processo alquímico e o processo analítico.
— Se os alquimistas transformavam chumbo em ouro, o processo de análise tenta transformar tristeza em significado, porque, com significado, a pessoa consegue seguir em frente — eu disse a ela.
E assim seguimos… Passamos pela definição de Self, a totalidade que nos habita e que habitamos, o todo que busca se ver pelo prisma da parte que somos e, mesmo que nos neguemos a tal missão, do centro à periferia de nossa existência, é a Si-mesmo que estaremos submetidos, conscientemente ou não. Claro que não disse isso a ela, deixei que ela lesse o texto: me pareceu mais claro do que eu poderia ser.
Passamos pelo “poço da alma” — chamo assim porque não me lembro o nome — e ela viu as pinturas de Jung serem animadas e ouviu o áudio que falava sobre a importância de seguir o próprio entusiasmo. Vimos “O livro vermelho”, que eu disse a ela ter sido escrito por Jung enquanto ele vivia “sonhos acordados”; foi como me pareceu mais didático traduzir imaginação ativa, embora não seja exatamente isso.
Seguimos, mas não sem antes ela me perguntar se faltava muito para acabar. Uma jornada pelo autoconhecimento a partir do olhar junguiano é difícil; jamais será fácil. Na sala dos sonhos, testemunhos de pessoas falando sobre como os sonhos as ajudam na vida real, explicações científicas sobre o valor do sono e dos sonhos, reflexões filosóficas. Ficamos lá por dez minutos. Ela já tinha ido bem demais.
Quis, antes, mostrar a ela o escaravelho. Contei a história da paciente de Jung que justificava a presença daquele inseto enorme de metal na exposição. Tentei explicar o que era sincronicidade e fomos para a reta final do tour, onde se lê uma breve biografia de Jung e se ouve os áudios da voz dele, reproduzida por IA, contando sonhos que foram fundamentais para as suas realizações como cientista da alma.
Achei que, pelo natural cansaço, ela não tinha extraído muito da parte dos sonhos. Mas, na dinâmica da programação paralela, “Tecendo a vida e a exposição”, na qual a analista junguiana Ana Paula Maluf e a cenógrafa da exposição Camila Whitaker falaram sobre como estamos todos enredados num só tecido de vida, que é real e onírico ao mesmo tempo, ela me trouxe essa: “Os sonhos realmente têm significado”.
Acho que esse encontro com o “universo de Jung” tem uma miríade de coisas a dizer a mim, à minha filha e a você, leitor, mas, se há uma que não se pode ignorar, é a de que os sonhos têm significado e podem ser tão reais e transformadores como qualquer fato. Afinal, essa exposição um dia foi um sonho e algo me diz que, embora realizado, continuará sendo.
Sensacional, uma viagem nas incógnitas do pensar, ver e sentir.
Sua filha está muito bem alicerçada. Abraços Mestre
Obrigado pela leitura, minha eterna professora. E, se tiver a oportunidade, dá um pulo na exposição. Acho que você vai gostar!
Parece uma exposição concebida para você, Wagner. Mas fiquei curiosa para vivenciar. Parabéns pela crônica. Muito bem escrita!
Pois é, Fátima. Se puder ir, verá que é uma “exposição-espelho”, reflete cada um. Obrigado pela atenciosa leitura e pelo comentário.