
Foto: Eero Uotila
A desvalorização das metáforas não é de hoje, são séculos de negação do mistério, de busca por certezas eternas que depois se revelam efêmeras como papel higiênico.
Dia desses, perdido nos stories do Instagram, fui atravessado por uma citação atribuída ao neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro que dizia o seguinte:
“As novas gerações serão extremamente literais porque o espaço da metáfora, da alegoria, da poesia, da filosofia, está sendo drasticamente reduzido”.
Quero crer que esteja errado, porque a perda da capacidade de simbolizar nos despe da humanidade que, em tese, é o nosso principal objetivo civilizatório. O que nos torna humanos é justamente a metáfora, a alegoria, a poesia e a filosofia. Somos seres mitopoéticos, “criamos” histórias e essas histórias criam os mundos que habitamos. Coloco as aspas em criamos porque mesmo tais criações parecem vir de uma fonte misteriosa que existe em nós.
A fé como certeza
Lembro-me de, certa vez, ter lido um texto de Carlos Heitor Cony em que ele contava como tinha decidido deixar o seminário. Foi no “Maracanazo”, como ficou conhecida a final da Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil. Ele, um jovem seminarista, viu, em pleno Maracanã, a virada uruguaia sobre o Brasil que, na ocasião, ainda não tinha nenhuma Copa.
Na saída do estádio, diversas pessoas contavam como tinham visto o segundo gol uruguaio, o gol da vitória, e ele notava que os relatos eram impressionantemente distintos. A maior parte deles, inclusive, não coincidiam com o que ele próprio havia testemunhado. Além da dor da derrota, tal discrepância somada a outras desilusões vividas na nascente jornada eclesiástica contribuiu para que decidisse largar o seminário: se algo que acabara de acontecer trazia relatos tão distintos, como acreditaria cegamente em uma história com quase dois mil anos.
Confesso que procurei o texto ou alguma declaração do próprio Cony na internet, algo que corroborasse a minha memória, mas não encontrei nada que me desse certeza — olha a certeza aí. A IA me informa que o período de sua crise de fé coincide com o Maracanazo e que isso consta em seu romance autobiográfico “Informação ao crucificado”, mas não há mais detalhes. Sendo assim, só nos resta seguir com dúvida. Afinal, como escreveu outro neurocientista lusófono, o português António Damásio:
“Nunca saberemos quão fiel é o nosso conhecimento em relação à realidade ‘absoluta’”.
Se minha memória estiver certa, para Cony, sobretudo o jovem, a fé era uma questão de certeza. Se, na época, ele tivesse pensado como o cardeal Lawrence, personagem do filme “Conclave”, talvez seguisse no seminário; ou não, talvez tivesse mais razões para deixá-lo. Lawrence, na minha opinião, vocalizou um dos textos mais bonitos do cinema recente:
“Nossa fé é uma coisa viva precisamente porque anda de mãos dadas com a dúvida. Se houvesse apenas certeza e nenhuma dúvida, não haveria mistério. E, portanto, nenhuma necessidade de fé”.
A dúvida como dádiva
Concordo com Sidarta que há uma busca temerária dos nossos jovens por tornar tudo fácil de entender, por olhar os acontecimentos numa perspectiva binária, em que tudo é isso “ou” aquilo e nunca isso “e” aquilo. Ao aniquilar, assim, o contraditório, somos impedidos de compreender os fatos numa dimensão mais humana, reduzimos a complexidade deles, ébrios de certezas, e, como canta em sua canção “Frontera” o uruguaio Jorge Drexler:
… el mundo está como está
por causa de las certezas
La guerra y la vanidad
comen en la misma mesa…
As certezas estancam o fluxo de dúvida que nos irriga com a dádiva da busca pelas respostas da vida. Mas, quando se trata de vida e criação, a resposta nunca pode ser certa e com valor geral. Afinal, a vida é única e distinta para cada um e a resposta é você, sou eu, somos cada qual e cada qual não é e nunca será igual. Para conciliar, é preciso ser flexível, duvidar de si e considerar o outro. É preciso encontrar um símbolo, uma metáfora, que integre a antinomia de que somos todos constituídos.
Eu acredito que é mais difícil para o jovem lidar com a dúvida do que para as pessoas maduras. Por isso, a literariedade que mais me preocupa é daqueles que têm quarenta mais. A juventude costuma ser marcada pelo desterro da segurança familiar e pela luta por conquistar um lugar no mundo. Caminhar numa estrada de dúvidas pode paralisar o jovem. Ele precisa ter certeza das referências que lhe deram para alcançar o “sucesso”.
Com o tempo, porém, espera-se que o sujeito aprenda que o importante não é ter certeza, mas capacidade de decidir mesmo com dúvida. O que atormenta não é a dúvida, mas a indecisão e o desafio, a meu ver, é decidir sem ser refém da certeza. Estar em paz com a dúvida e decidir sem certeza é um privilégio de quem lida bem com as metáforas, com a poesia, como Nelson Mandela, que declarou poeticamente que:
“Eu nunca perco, quando não venço, aprendo”.
Ou seja, não é perder ou vencer; é, no caso, perder e, ainda assim, vencer.
Olhos para as estrelas
Para fechar essa pensata que partiu das aspas de Sidarta, o neurocientista, acho importante reforçar que, mais temerário do que a ausência de metáfora entre os jovens, é a ausência dela entre os mais velhos, aqueles que costumam e deveriam ser o exemplo para os jovens. Ouso dizer que estamos todos, não só os jovens, literais. Isso acontece porque a falta de valor às metáforas não é de hoje, são séculos de negação do mistério; séculos de busca por certezas eternas que, depois, revelam-se efêmeras como um rolo de papel higiênico.
Talvez por isso o escritor ucraniano Mikhail Bulgakov escreveu em seu romance “O exército branco”:
“Tudo passa — sofrimento, dor, sangue, fome e peste. A espada também passará, mas as estrelas ainda permanecerão quando as sombras de nossa presença e nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que, então, não voltamos nossos olhos para as estrelas? Por quê?”
O céu e suas estrelas são, a um só tempo, certeza e mistério. O céu não é “ou”, é “e”. Não separa, une, como os símbolos, como as metáforas e a poesia. Por isso, é tão lindo de ver.
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