
A partir da meia-idade, a vida pede ao “artista” que encontre os verdadeiros alvos das flechas atiradas na juventude. Deste ponto em diante, onde quer que esteja no tempo de cada um, as vivências da primeira metade da vida precisam ser transformadas em combustível para novas realizações
— Qual é a diferença entre um artesão e um artista?.. Vi isso no Insta.
— Acho que o artesão cria pensando no que agrada ao público. Sua criação é de fora para dentro, principalmente, porque a ideia é que o produto seja comercial. Já o artista está mais preocupado em expressar da melhor maneira possível uma imagem interior, que deseja que ganhe o mundo. Ou seja, cria de dentro para fora…
— Isso, sim. Mas não é isso. Imagine que o artesão e o artista são arqueiros e que têm uma parede inteira para usar de alvo. Como cada um, considerando a diferença de seus caráteres, faria isso?
— Não faço ideia.
— O artesão desenharia, na parede, alvos correspondentes à quantidade de flechas que tinha. Depois, tomaria distância e lançaria as flechas, com o objetivo de acertar os centros. Claro, não necessariamente todas acertariam o centro do alvo.
— E o artista?
— O artista lançaria as flechas com a parede em branco e, depois, veria a posição de cada uma delas e desenharia os alvos, dispondo, se quisesse, todas as flechas nos centros.
Ao ouvir essa “charada” de uma analisanda, fiquei tocado. Fazia muito sentido, ainda mais quando combinada com a ideia de que o artesão cria a partir de fora e o artista, de dentro.
Fui atravessado pela ideia de que, na primeira metade da vida, somos guiados pelo que está fora. Na juventude, busca-se conquistar um lugar ao sol, obter reconhecimento, ganhar dinheiro. Precisamos encontrar e vestir as máscaras sociais — personas, na psicologia analítica —, capazes de satisfazer nossas legítimas aspirações de adaptação e poder.
Sim, precisamos de poder, sobretudo, de escolha, o que não significa independência, porque, de alguma forma, sempre dependeremos. Mas o importante é poder escolher como serão esses vínculos de dependência. Ainda assim, acredito que só somos capazes de alcançar esse “poder” quando o braço que puxa o arco e a flecha é, consciente ou inconscientemente, conduzido pelo amor.
Durante a juventude, cada um deve fazer na parede em branco da vida, com uma dose enorme e inevitável de ignorância e diferenças socioeconômicas e culturais, os alvos que, se acredita, ao serem alvejados, com o máximo de precisão possível, vão nos colocar em posição de segurança e proeminência.
Contudo, como nada é para sempre, na segunda metade da vida, experimentamos uma metanoia e, a partir daí, o que nos guia, sobretudo, não é mais a conquista fora de si, mas o encontro com o que há dentro. Não se trata mais de buscar o reconhecimento do mundo, embora esse ainda tenha importância, mas de buscar o autorreconhecimento.
É o artista que precisa pegar o “arco”. O artesão precisa se despedir. Os alvos feitos pelo artesão na parede na primeira metade da vida já estão desbotados. Insistir neles é insistir no que não faz mais sentido. As flechas, que atirou, estão em diferentes pontos. O artista habilidoso e sensível não precisa tirá-las para fazer novos disparos. Ele precisa fazer novos alvos, pintar a parede de novo com as flechas exatamente onde estão.
A arte da segunda metade da vida é encontrar o verdadeiro alvo das flechas atiradas ao longo da primeira. Mesmo que inconscientes e dolorosas, a princípio, as vivências da juventude não podem ser apenas um fardo, precisam ser transformadas em combustível para novas e mais conscientes realizações também. O segredo está no olhar mitopoético, não no disparo.
Agora, as flechas são os pincéis do artista, que funcionarão menos como objetivos do homem e mais como um anseio da alma. Aquilo que se conquistou na juventude e virou símbolo de status, por esse aspecto, deverá ser posto de lado. Precisará ter um novo significado. O que se tentou e resultou num doloroso fracasso na primeira metade da vida, também. Afinal, quando já não pode mais ser realizado, não é mais sonho, é ilusão.
O artista e o artesão, que habita cada um de nós, a meu ver, não se opõem entre si, ao contrário, se completam.
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