A análise junguiana e a revelação das imagens da alma

Do negativo ao positivo, a “cura” da imagem na revelação fotográfica e a autorrevelação como cura no processo analítico.

Do negativo ao positivo, a “cura” da imagem na revelação fotográfica e a autorrevelação como cura na análise junguiana.

 

Quando eu era menino, as telas se limitavam às das TVs, não havia celulares, as fotos eram físicas, nasciam de filmes e eram escritas nos cristais de prata de um papel fotográfico, composto também de fibra e sulfato de bário. Nesse processo, o contato com a luz, por meio de um aparelho chamado ampliador, permite que a imagem do filme seja “escrita” no papel graças a uma reação química.

No filme, também chamado de negativo, luz e sombra se invertem. Ou seja, onde está claro é, na verdade, escuro. Onde está escuro, é claro. Na ampliação, o negativo se transforma em seu oposto, o positivo, mas a imagem ainda está coberta por um véu invisível. Para ser revelada, será preciso submeter o papel fotográfico a três banhos químicos: um revelador, outro para interromper a revelação — porque há um limite até para o que deve ser revelado — e outro para fixar o que se revelou.

Todo esse processo, em si, é encantador, mas fiquei ainda mais encantado, quando enxerguei nele um paralelo significativo com a análise junguiana. Ao associar a revelação à análise, mais do que química, enxerguei alquimia na revelação. Mais do que técnica, enxerguei cura, no sentido de cuidado e transformação.

Entre a luz e a sombra

A cura da imagem, que vai do negativo ao positivo, pressupõe um cuidadoso uso da luz, mas, sobretudo, da sombra. De certa forma, assim também é na análise junguiana. A revelação de uma imagem é feita num quarto escuro, com uma delicada e luxuriosa luz avermelhada, que menos ilumina do que esconde. A análise também nos convida à discrição da penumbra: a intimidade tem um toque de segredo e costuma ser assustadora, mesmo que pela beleza.

A análise junguiana também nos convida à discrição da penumbra: a intimidade tem um toque de segredo e costuma ser assustadora, mesmo que pela beleza.

A análise junguiana também nos convida à discrição da penumbra: a intimidade tem um toque de segredo. (Foto: Michael Henry)

É nesse quarto escuro que se faz a luminosa ampliação, mas a luz só funciona por causa do contraponto da sombra. Na análise junguiana, o analista ajuda o cliente a jogar a luz da sua consciência nas projeções que faz da imagem negativa que carrega inconscientemente. Para esse autorreconhecimento, o terapeuta usa técnicas de ampliação simbólica: análise de sonhos, de expressões criativas, de sintomas físicos e dos acontecimentos da vida.

Feita a luminosa ampliação simbólica, é hora dos “banhos” que, na clínica, muitas vezes, são de lágrimas. É preciso trazer as emoções, os afetos envolvidos, para que o véu da imagem seja retirado e o analisando possa ver que, boa parte daquilo que ele enxergava no outro, era o que ele não queria admitir em si mesmo.

Fragilidade a ser revelada

A infância costuma deixar marcas em nós que não são apenas positivas. A fragilidade da criança é algo que, muitas vezes, no processo de amadurecimento, procuramos reprimir. Mas ninguém se desenvolve deixando a criança que se foi desamparada no passado. O adulto que nos tornamos tem como umas das principais missões psicoemocionais esse autocuidado.

Eu me lembro de me achar burro quando pequeno. Várias experiências contribuíram para esse complexo de inferioridade. Boa parte da minha vida adulta foi um esforço para provar, ao mundo, que eu era intelectualmente capaz. Meu processo de análise, contudo, mostraria que não se tratava de provar nada ao mundo, mas de negar o vulnerável e frágil que, inevitavelmente, eu trago em mim.

Da confissão à transformação

Voltando para o paralelo entre revelação e análise, o banho revelador no papel fotográfico equivaleria, no processo analítico, ao que Jung chamou de “confissão”, o instante catártico da análise junguiana em que o cliente revela a si mesmo o que não queria reconhecer. No meu caso: a minha vulnerabilidade.

Essa constatação traz consigo a necessidade de ver com clareza. O processo pede, então, a interrupção da catarse. Agora, mais importante do que seguir confessando, o que pode obscurecer a revelação, é esclarecer o que foi confessado. É a fase do “esclarecimento”, quando entendo que, por mais frágil que eu tenha me sentido, fui capaz, mesmo que inconscientemente, de me desenvolver intelectual e profissionalmente também e em boa medida por causa do meu complexo.

A visão “clara” dessa imagem que governava o meu comportamento me permite me ver de fora e perceber como me comporto ou me comportava de forma inconsciente e, muitas vezes, “insensata”. A partir dessa constatação, posso rever minhas atitudes, por meio de um longo tempo de auto-observação, recaídas e aprendizados. Essa fase da análise, Jung denominou de “educação”.

A cada uma das fases da análise junguiana, analista e analisando são levados a acreditar que algo definitivo foi alcançado e que, a partir dali, as dificuldades serão menores ou não existirão. Contudo, o desafio se renova até que, na “educação”, se descobre que, para fazer do negativo positivo, são necessários trabalho e dedicação incansáveis.

Só assim se chega à “transformação”, a última etapa do processo, quando a imagem, antes incômoda, mas agora cheia de boas memórias, pode ser exposta num porta-retrato na cômoda da sala.

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